terça-feira, 11 de março de 2008

Anotações Técnicas Psicoterápicas I - Psicanálise

Freud foi platéia de Charcot, na escola durante 4 meses. Já próximo a voltar para Viena
Freud começou a clinicar em 1887, seus primeiros pacientes foram casos muito complicados, indecifráveis. Inicialmente Freud tinha 8 pacientes, a maioria mulheres.
Acha que toda neurose é fruto de um estado hipnóide da consciência. Na neurose a pessoa está em semivigília e por uma fadiga extrema não consegue extravasar. (impossibilidade de reagir). Esse estado hipnóide desenvolve uma lacuna de memória (amnésia lacunar).

Teve a idéia de hipnotizar essas mulheres para tentar descobrir o que elas tinham. Além das analgesias, e paralisias as pacientes também tinham lapsos de memória. Freud começa a investigar esses lapsos. A hipnose em Freud era utilizada na pesquisa da origem etiológica da histeria. Breuer, encantado com o seu pupilo, começa a observar Freud hipnotizando suas pacientes. É interessante citar que o uso do divã surgiu para facilitar a hipnose, pois Freud podia circular observando a sua paciente. O objetivo da hipnose era tentar estabelecer a sucessão de eventos na cadeia de lembranças.
Freud foi aluno e contemporâneo de Kraft-Ebing. Estudou o seu tratado, que era idêntico ao de Schule. Freud também estudou Griesinger, sendo que os Fundamentos de Griesinger são fundamentais para a compreensão da psicanálise.
O tripé da psicanálise seria o positivismo, a filosofia idealista de Kant e os Fundamentos de Griesinger.
Lendo Griesinger “Fundamentos da Psicopatologia Geral e Clínica”: A sensação e a percepção constituem uma série de representações (imagens que vêm à cabeça). As representações vão sendo unidas pela similaridade em diversos elos que formam “correntes psicológicas”, o que seria a personalidade. Griesinger define a psicose única. Todas as alterações psíquicas eram uma só com vários estágios que se formam diferentemente. O primeiro grau da doença é sempre uma alteração do afeto. Com uma alteração afetiva as senso-percepções também são alteradas e as representações formam correntes divergentes que levam à cisão do eu.
O afeto perpassa todos os processos psíquicos. O afeto não se dissolve jamais. Todo afeto mobilizado tem que ser liberado, descarregado ou pela linguagem ou pela atividade volitiva (motora). Caso esse afeto não seja liberado, surge a amnese lacunar.
Idéia = representação + afeto.
Na 1ª teoria da Neurose – estados hipnóticos da consciência, cuja resultante é um sintoma físico e um lapso de memória (amnésia lacunar). O Método era a hipnose sugestiva cujo objetivo seria liberar o afeto que levou à amnese lacunar, retomar a representação. Assim que Freud conclui isso, ele repensa e conclui que não poderia resolver apenas a questão da representação através da liberação do afeto.
Na 2ª teoria da neurose – A origem da neurose é o estado hipnóide da consciência. Toda situação em que o afeto não é descarregado, leva ao trauma. O segundo método foi a hipnose catártica. O termo cartase tem 2 origens:
1. Literária – a catarse é o que distingue a tragédia do drama. Na tragédia o sujeito vivencia emocionalmente o que o personagem faz.
2. Médica – Descarga, botar para fora, toda reação em massa do organismo.(vômito)
Freud juntou as duas significações – a catarse seria um descarrego afetivo.
A hipnose tanto pode ser chamada de catártica quanto de ab-reativa. Na hipnose catártica o paciente pode liberar todo o afeto contido.
A representação vai embora em função do trauma, o afeto fica solto. Não existe afeto puro. Todo o afeto puro é sintoma de angústia. A angústia é o afeto sem objeto. Ninguém fica o tempo todo na angústia.
Esse afeto solto pode ir para:
Corpo – soma – histeria
Pensamento – pensamento obsessivo – neurose obsessiva
Objeto externo – medo/ansiedade – fobia
O afeto é que dá o tom e mobilidade aos processos psíquicos. Assim, o objetivo do 2º tratamento é liberar o afeto contido.

Em 1888, a partir do tratamento de Anna O, Freud começa a fazer modificações na sua teoria da Neurose. Anna O começa a avaliar o próprio tratamento e usa o termo “talk cure”, que seria uma cura pela palavra. Freud escreve para Fliss. (A comunicação que Freud mantinha com Fliss era uma auto-análise de ambas as partes).
Entre 1888 e 1889 Freud observa que o que ele chamou de trauma (impossibilidade de escoamento do afeto) eram sempre situações ocorridas na infância das pacientes histéricas. Essas situações se davam, quando na infância, as meninas se viam sexualmente excitadas e isso gerava o trauma.
Na vida adulta, quando a mulher conhece o afeto sexual, ela suscita, resignifica o evento traumático, dando outra conotação, abolindo das suas representações o evento traumático. (esquece o ocorrido).
Freud pensa então que o trauma tem um caráter sexual e infantil.
Entre o segundo e o terceiro momento da sua teoria da neurose, Freud pensa que o trauma é a contenção do afeto. Porém através da sua auto-análise ele também descobre aspectos obscuros da sua infância (sonho com a sua mãe);
Freud inaugura o terceiro momento pensando no trauma como a origem da neurose de etimologia sexual infantil.
Ele começa a abandonar a hipnose e vai para a técnica da associação livre (dizer o que vem à cabeça sem restrições), pois diz que a hipnose tem vida curta e que os “problemas” retrocediam após o paciente sair da hipnose. Em 1901 ele chama a associação livre de “regra fundamental”, o que significa dizer que a psicanálise só tem uma regra. O fundamental não está no “livre”, mas sim na “associação”. O que se pretende são as correlações, os “links”.
De 1888 à 1889 fez a mudança e até 1895 ele pesquisa com as histéricas. De 1895 à 1897 ele consolida sua teoria, e decide escrever a teoria do inconsciente.
Para Freud as representações que são abolidas do inconsciente vão se juntando e formando novas correntes, pois tudo aquilo que suscita um afeto similar ao evento traumático o sujeito abolia automaticamente (mecanismo de defesa). Essa corrente separada forma uma cisão da consciência (1896). E assim ele começa a buscar uma explicação para o psiquismo.Em 1899 Freud desvenda o que é o inconsciente.

Freud é levado a admitir que todos possuam um inconsciente. Mas ele chega a uma questão: Quem não passou por um trauma, quem não era histérico não teria inconsciência? Ele conclui que sim em função dos sonhos. Ele nomeia então, de recalque tudo que é reprimido pelos sujeitos e que ocorre com todos os seres humanos. Isso gera uma grande inconsistência lógica à psicanálise. Freud só vai resolver isso em 1923, já com câncer, dizendo que existe para todos um “recalque primário”.
Entre as décadas de 80 e 90, Freud substitui a idéia de que as mulheres tinham sido abusadas sexualmente na infância, pela de que elas tinham uma fantasia de abuso. Isso ele descobre num momento em que ele próprio descobria a noção de Édipo.
A origem da neurose será para sempre sexual e infantil, gerada pela fantasia de abuso, pois existe o desejo, que é barrado pelo Édipo e pela castração.

Tabela

Teoria da Neurose Técnica
1ª Fase Estado hipnóide da consciência Hipnose sugestiva
2ª Fase Não reação afetiva Ab-reação/ caterse
3ª Fase Abolição da representação
Trauma sexual infantil
Fantasia de sedução
Castração Associação livre
Estabelecimento da transferência
Derrota da resistência
Manejo da Transferência


Castração

Estruturas clínicas – a partir da passagem do século fica claro para Freud que o trauma é uma fantasia de sedução, o que traduz uma sexualidade infantil.
Em 1905 Freud organiza a Teoria do Édipo, construindo o conceito de castração como sendo um estruturante psíquico.
Em relação à terapia, nada muda, continua o método da associação livre.
Com a teoria da castração ele compreende como se estrutura o humano.
O movimento de desvinculo afetivo dos pais é que constitui o sujeito.
A castração é colocada para todos que estão inseridos num contexto de linguagem. Freud considera a castração como sendo incidental ou acidental, não é obrigatória. Considera que existem pessoas normais e outras anormais pelo efeito da castração.
A neurose é um efeito castrador maior da cultura sobre o indivíduo.
Em 1905 0 esquema está “armado”, mas só em 1923 ele vai postular a noção de recalque primário que vai mudar os rumos da psicanálise.
A neurose em 1905 seria uma doença mental dos que tiveram um processo de castração muito forte.
Castração – efeitos do social ou cultural sobre as pulsões individuais.
A castração mais light gera pessoas normais.
Após 1923 – com o recalque primário, surge a idéia de “objeto peerdido”, o recalque primário é avassalador e irreversível.
É ai que a psicanálise deixa de ser uma terapia – não vai ter mais o objetivo de curar alguém. O processo psicanalítico permite “refazer-se como sujeito”. Seria a subversão subjetiva.
Freud a partir daí não mais pensará as pessoas como normais. Pensará que os seres humanos se encaixarão em estruturas clínicas fundamentais:
1. Neurose
2. Perversão
3. Psicose

Uma estrutura clínica é um modo de operar psiquicamente.

Neurose – é alguém que se submeteu profundamente à castração. É alguém para quem o recalque primário funcionou plenamente. Se submeteu à lei, as regras. É alguém que abdica das suas pulsões inconscientes em prol do social, cultural.
Perversão – É alguém que se submete à castração, porém tenta desfazer isso, tenta negar isso.
Psicose – É alguém para quem a castração não tem efeito, passou do prazo.

Neurose → Castração
Perversão → Denegação
Psicose → Foraclusão

Denegação – É alguém que tem o registro claro das leis, porém tem satisfação em burlá-las.
Foraclusão – É alguém que teve a castração fora do tempo. É alguém que não reconhece as leis. O sujeito tem o registro da castração, mas não abona suas pulsões.

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