Embora a gente tenha visto que desde o inicio da abordagem sistêmica houve uma tentativa de avançar do intrapsiquico para o inter-relacional, a gente vai ver ainda que na década de 70 até o finalzinho desta década e inicio da década de 80 vamos trabalhar com os conceitos e pressupostos da cibernética de primeira ordem. No inicio, a gente vai ver um terapeuta com a condição de expert, assumindo uma meta posição associado a uma figura de um engenheiro social que conserta o defeito, que seria o sintoma; um terapeuta presunçoso que achava que conhecia mais e melhor o funcionamento da família do que ela mesma, do que o individuo.
A partir da década de 80, a primeira epistemologia que embasa o primeiro momento ou movimento do novo paradigmático é o construtivismo e agente já dá outro salto em relação a fase precedente, vai ver que o grande salto do movimento construtivista é admitir que a neutralidade absoluta inexiste e que a subjetividade do observador deforma uma realidade com a qual interage e que os construtivistas vão admitir que a realidade é apenas aquela com a qual a gente está se relacionando. Não existe para o construtivista uma realidade per si que independa do observador. Isso é o que a fenomenologia fala e eles rompem, negam a fenomenologia. Só existe quando eu interajo como, relaciono com e ao interagir com essa realidade, o meu olhar deforma , deforma a partir das minhas lentes que são: os meus preconceitos, as minhas teorias, as minhas crenças, os meus valores, a minha cultura, a minha historia de vida.
Ainda que tenha sido um salto, o construtivismo traz ainda, em cima de uma dicotomia, que é um sujeito cognoscente , com seus construtos mentais, é um sujeito ativo, não é um sujeito passivo, questionador que deforma, mas, ainda, existe a dicotomia entre o sujeito e o objeto, sujeito realidade, embora admite que esta realidade é deformada pelo olhar dele. Mas, o olhar do sujeito deforma a realidade.
Às vezes, ora o construtivismo se presta a uma terapia individual, ora o construcionismo pode se prestar melhor a uma terapia sistêmica de família. Não necessariamente de família.
O que a gente vai dar um salto é que esta dicotomia, que ainda é uma forma do próprio construtivismo por se trair em si mesmo porque ele pensa avançar tanto, avança mais do ele gostaria...
Então, o que primeiro existe como pressuposto do construcionismo social é: “A linguagem convida a existir”. A elevação máxima do papel da linguagem. Nesse primeiro pressuposto do construcionismo social, a idéia básica é, antes de um sistema existir, existe uma linguagem que se referirá a ele; é linguajando, é na linguagem que a gente vai fazendo referencias a algo que se constituirá um sistema. Isto é oposto o que a gente estar habituada a pensar. Pensando em uma realidade pré-existente a gente vai pensar o seguinte: existe um sistema e eu vou utilizar a linguagem para me referir e descrever esse sistema como uma determinada organização, formada por um grupo de pessoas e eu vou usar a linguagem para descrever ou complementar, é a linguagem descritiva ou representacional. A gente viu que foi substituída por uma linguagem inventada a partir do construtivismo.
O que o construcionismo estar dizendo é: nada existe, nada pré-existe a linguagem. O que primeiro existe é uma comunidade de interlocutores dialogando e a partir desse dialogo, dessa conversação dialógica é que as realidades emergem. O sistema é uma realidade. Então, se eu me refiro linguajando, comunicando, dialogando de uma determinada maneira, eu vou convidar um sistema a existir daquela maneira, daquela forma e, se eu linguajar de outra forma, outro sistema vai emergir de outra forma a partir do meu linguajar. Então o que vem primeiro é a linguagem para depois se constituir um sistema, porque o sistema depende do linguajar precedente. Isso é o oposto do que a gente estar acostumado.
Os sistemas humanos são sistemas que geram linguagem e simultaneamente geram significados. A comunicação e o discurso geram uma organização social, ou seja, um sistema sociocultural que é produto de uma comunicação social. A comunicação social pode ser lida como:
• Uma comunidade de pessoas dialogando;
• Comunidade de interlocutores ou selves;
• Circuitos convencionais
• Desenho social flexível
• Comunicação social
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Essas são terminologias semelhantes que querem dizer que esse grupo de pessoas, utilizando-se da linguagem produz realidades. Então uma realidade só existe quando há primeiro uma linguagem e é por isso que se diz que o sistema social é produto de uma comunicação social e não, a comunicação é um produto de uma organização. Antes a gente achava que a linguagem era apenas para descrever o que já existe que era o sistema organizado de uma determinada maneira ou mais patológico ou mais saudável.
A pretensão do construcionismo é sobrepor ao construtivismo. Eles têm as mesmas noções de conhecimentos, de não neutralidade, de subjetividade, mas o construtivismo ainda admite que o sujeito cognoscente é uma realidade e o construcionismo diz que s realidade é o produto de uma comunidade de selves, (plural de self). A gente diz comunidade de interlocutores ou comunidade de selves.
A linguagem sistêmica gera sistema, quando os sistemas dialogam estão continuando operar tanto linguagem quanto significados. O que vai passar a ser interessante se a linguagem convida a existir e ela passa a ser o palco da cena terapêutica, o que a terapia passa a ter como meta uma reconstrução de significados a partir da linguagem, então na realidade, digamos que a gente chega a terapia quando temos uma versão pessimista de nos mesma, não gostamos do estamos fazendo, ou quando não percebemos uma serie de criticas, do olhar do outro sobre nós, então começamos a achar que talvez estamos inadequada; se o que outro diz nos incomoda, de alguma maneira isto está fazendo sentido pra gente. È dessa forma problemática, desconfortável que procuramos o terapeuta e vamos chegar lá com um discurso único que é chamado de discurso saturado, descrição saturada, porque ele é limitado, só vemos um ângulo da gente e isso nos adoece. Qual é o objetivo da terapia? Se o terapeuta é associado a figura de um arquiteto do dialogo, alguém que maneja o linguajar e numa linguagem de construtiva da realidade, o objetivo da terapia é relatar a nossa historia e ao relatar a nossa historia o que nos incomoda, os nossos sintomas, o contexto que vivemos, o que estamos fazendo, o que estamos sofrendo, é nessa comunicação que o terapeuta entra, é nessa troca de informações, nessa troca lingüística é que vai ajudar o cliente , não só a favorecer uma multiplicidade de outras versões, que não apenas a saturada, que é a que ele chega, mas vai reconstruir os significados. Será mesmo que esta é a única maneira da gente interpretamos aquele evento? Então, são novas interpretações, é uma pluralidade de versões que ele favorece numa troca lingüística com o cliente.
Uma forma sistematizada da terapia dentro de um modelo construcionista social, como se dar o processo de mudança.
Os objetivos terapêuticos e o processo de mudança são dois aspectos relacionados. Os objetivos terapêuticos ampliam a visão saturada para o pluriverso. Pluriverso são as múltiplas alternativas para o cliente que traz um único relato saturado ( visão obtusa, único relato, limitado) ou que estão falando dele, ou que ele mesmo acha sobre si mesmo (não estou gostando de mim, estas circunstancias estão me adoecendo, estar me botando louco, me fazendo sofrer). Ele chega com essa visão limitada e um dos objetivos terapêuticos é que como arquiteto do dialogo, o terapeuta ajude nesse linguajar, nessa troca dialógica, compreende e favorece múltiplas versões que é o que se chama pluriverso. Quando a gente amplia o numero de versões a gente vai mexer também com o significado originário que o cliente trouxe da doença dele. Então, aqui também há uma reconstrução do significado. o significado é o conhecimento construído socialmente e intersubjetivamente. Estamos falando de uma condição básica que uma realidade pressupõe o conceito da intersubjetividade que é o cruzamento de dois mundos internos o do terapeuta e o do cliente. Aqui a gente vai trabalhar com uma comunidade de selves, então a intersubjetividade é plural, são vários selves, são vários mundos internos conectados. Então o conhecimento é construído tanto socialmente nesses grupos dos quais fazemos parte como também, intersubjetivamente com significados intersubjetivos referentes de uma situação por mais de duas pessoas que percebem o mesmo evento, do mesmo modo e compreensão comportando esta experiência intersubjetiva de no mínimo dois interlocutores quando eles trocam impressões sobre uma temática, quando a gente estar conversando sobre um determinado tema nos dois, então num certo consenso, o mesmo nível de significado, a gente estar dando para aquele problema, a gente diz que existe uma realidade intersubjetiva e consensual e que esta realidade é sempre mutável, porque uma outra frase que é característica do construcionismo é a seguinte: “ O que é que você quer dizer com isto? Não sei porque ainda não acabei de falar”. Isso significa que enquanto a gente está dialogando, enquanto a gente está linguajando os significados podem emergir e as realidades podem ser transformadas. Nada é fixo, nem a nossa identidade.
Como ser humano a identidade que eu tenho é um pouca da característica do que me constitui como pessoa, mas se de repente eu fizer parte de outro grupo de conversação, provavelmente, nessa troca que eu tenho de outro grupo eu vou angariar conhecimentos que vão me trazer benefícios para construção da minha identidade; a minha identidade é sempre uma construção montada que depende inclusive, do olhar do outro e das trocas lingüísticas, as quais eu participo. Em cada novo grupo que eu vou participando, pode em algum momento, me trazer algum detalhe que eu vou ampliar uma constituição identidária daquilo que eu não era minutos antes, anos antes, caracteristicamente falando. Então, veja que esta é uma teoria que desbanca as teorias da personalidade que defende a idéia de que a época tal suas características são fixas, e sua identidade é imutável. Aqui, a identidade é móvel, mutável, não fixa e depende também das conversações e do olhar do outro sobre nós. No entanto, é claro que o acordo é frágil e aberto a renegociações....pra que consiga um significado e uma compreensão é necessário uma ação comunicativa. Eu preciso participar de um grupo de conversação para que um significado novo emirja. Isso é o que é chamado de ação comunicativa.
A sua identidade não pode ser definitiva, você vai absolver características ao longo da vida. Você tem uma única constituição identitária, mas mutável e não várias constituições identidárias. Algumas teorias defendem a idéia de que até um determinado período cronológico, a constituição de sua personalidade se desenvolve até aquele momento e dali em diante as características são praticamente imutáveis. Então a possibilidade de você mudar as características de personalidade é ínfima. Uma vez que você traz na sua personalidade tal característica, isso é imutável e não adianta o que aconteça e se você vive você tem uma previsão da daqui a dez anos de fazer da mesma forma. Isso o construcionismo social não defende. Esse um discurso cartesiano com pressuposto determinista. No construcionismo você vai ampliando a sua construção identidária, mas não radicalmente.
O segundo pressuposto do construcionismo social resume que o sistema terapêutico tanto organiza um problema como também dissolvem um problema. Vamos pensar que qualquer construção de significados novos exige a desconstrução de significados anteriores. Se eu chego desconsolada para o meu terapeuta sobre mim, sobre a minha dificuldade, sobre a minha família, para que esse significado vai sendo transformado na linguagem, é necessário é necessário que dissolva que desconstrua o significado anterior. A idéia é que uma reconstrução de um significado é precedido por uma dissolução de um significado precedente. Primeiro eu dissolvo, ou desconstruo o significado para depois reconstruir outro, porque, enquanto eu não dissolver o primeiro, não chego ao segundo. Eu vou destruindo a minha idéia saturada para ir reconstruindo outra idéia.
O sistema terapêutico, como organizador de problemas, significa que o sistema terapêutico tem um grupo de pessoas que dialogam, e ao disputarem trocas lingüísticas vai emergir um problema que é uma realidade. A realidade emerge na linguagem. Esse grupo de pessoas emerge uma realidade. Qual é a realidade? É o problema.
O meu self é a construção das minhas vozes internalizadas que vem de minha historia, dos meus avos, de meus pais, etc. e também das vozes externas. O problema não existe até que chega pra gente e a gente possa dialogar com pessoas. A gente constrói o problema e reconstruímos os significados pra eles. O problema não existe, enquanto você não dialoga sobre aquela temática com o cliente. O problema existe para o cliente porque foi construído com outras pessoas, mas você não está sabendo disso. O problema passa a existir na medidas que você se encontra com o outro e na troca dialógica faz emergir uma realidade que no seting terapêutico é um problema porque você não vai trabalhar o que não é problema. O papel do terapeuta é trabalhar problemas e não coisas que não são problemas. Aí você tanto dissolve os significados anteriores para que outros significados e outras reconstruções de significados surjam. Por isso o sistema terapêutico é um sistema organizador do problema e dissolvedor do problema. Uma versão saturada do cliente que chega a terapia, é uma cristalização de um significado único. Para eu dissolver essa idéia, eu tenho que desconstruir aquele significado único.
Não existe realidade com a qual você não interage com ela.
A terapia é um evento lingüístico que funciona como um palco daquilo que chamamos de conversação terapêutica. A terapia é uma investigação, uma exploração recíproca, é uma troca através do dialogo, é uma troca é um comércio de significados, um duplo intercâmbio de idéias que sempre envolve novos significados até a dissolução do sistema terapêutico. A mudança consiste na evolução de novos significados através de um diálogo. Quando você chega a um significado que lhe deixa confortável, pode ir embora.
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