A felicidade e o prazer se conjugam, ou não, através de atos de consumo que se dirigem a múltiplos objetos em busca de múltiplas finalidades. Este movimento ora ameniza a angústia, ora a intensifica através do vazio que se mostra em um imperativo ato de ter e possuir. O prazer como ausência de dor é um ponto importante discutido na filosofia.
O prazer, e o que pode ser entendido ou não como estado de felicidade, revelam diferentes aspectos da sua natureza, ou seja, pelo o que vem sendo problemático e o que vem sendo incluído no conceito de dependência.
Nos dias atuais, a dependência não está restrita apenas ao abuso de álcool e do consumo de drogas ilícitas, mas é também o jogo patológico, o sexo compulsivo, o abuso de medicações psicotrópicas. A busca do prazer é um dos fins necessários da conduta humana e ele mostra-se problemático quando sob sua égide a conduta humana é posta em questão. Isso acontece quando, na prática da realização do prazer, existe algum tipo de confrontação com perspectiva moral dentro de um grupo, ou quando outros setores da existência do indivíduo ficam comprometidos por causa desta busca.
O prazer deixa de ser uma discussão unicamente biológica quando, a partir do desenvolvimento de um grupo, se consolida uma cultura com um determinado universo de valores. Esses valores tornarão permitida a realização de alguns prazeres, desde que realizado numa determinada medida, e censurará a realização de outros, em nome de um sistema moral que tenta suprimir os riscos de descontrole.
Nos gregos encontramos o processo de refinamento da experiência do prazer na vida cotidiana. O prazer estava presente num culto simultâneo do corpo e do espírito. Ao mesmo tempo em que os gregos foram refinando e ampliando as múltiplas formas de se buscar prazer, também iniciaram algumas reflexões éticas geradas pelo caráter especifico de sua natureza DESEJO X PODER.
Ao discutir sobre a natureza do prazer, os gregos tentam descrever pela primeira vez como se dá a experiência de desejar, utilizado o desejo como algo inerente ao prazer. Na expressão do desejo na vivência do prazer os gregos construíram duas visões opostas sobre o valor do prazer:
O pensamento platônico, no qual problematizam o cultivo de alguns prazeres, principalmente os que estão suscitados pelos apetites do corpo – a busca do conhecimento da verdade.
O movimento hedonista: coloca o prazer como o valor máximo de expressão de felicidade. É a procura indiscriminada do prazer (nesse caso, teria maior proximidade com o que se observa no fenômeno das dependências) – único bem possível. No hedonismo, a medida é o corpo e o seu valor ético se funda numa prática que possa circunscrever a arte do gozo.
Dentro do pensamento hedonista, a felicidade se funda no prazer – hedonismo epicurista: defende que o prazer consiste simplesmente em evitar a dor. “O prazer no epicurismo é negativo e reativo: gozar é não sofrer, ao contrario, no hedonismo de Aristipo, o prazer é positivo e ativo.”
Para os epicuristas, o desejo natural só era permitido e necessário para sobrevivência e bem-estar do organismo. Existirão prazeres que se supõem rejeitados, ou seja, qualquer outro desejo que revele intenções que estejam fora do necessário para a manutenção da integridade física.
Existe um grande preconceito para reconhecer e dialogar mais corajosamente sobre o que é o prazer no consumo das substâncias psicoativas e sobre como este prazer se configura quando se constitui a dependência. Observa-se isso de duas formas, pois o silencio permeia quem trata e quem recebe este tratamento.
O prazer da droga, a princípio, é julgado como mal, independente das características que configuram um padrão de uso recreativo, abusivo ou dependente. São muitos os motivos que levam alguém a fazer uso de drogas: por curiosidade, para fugir de determinada situação, para pertencer a um grupo, para relaxar, para estimular, etc.. No entanto, a imediata e intensa sensação de prazer, ou ausência de desprazer, suscita novo uso. Nada teria isso de mau se não se verificassem, em alguns casos, más conseqüências desse uso e da dependência.
A droga advém como promessa e, também, experiência de sentir-se melhor. A dependência configura-se quando a confiança nessa promessa obscurece todos os outros apelos do mundo, fazendo com que o cuidado consigo mesmo fique limitado a esta única forma de promoção de um viver melhor.
A busca repetitiva de sensações de prazer nas drogas faz com que o dependente altere sua relação com o tempo, aliviando-se constantemente da necessidade de cuidar de seu futuro. O uso repetitivo promove a busca de uma sensação já conhecida como prazerosa: a realização da droga é o prazer previsto. Desse modo, sem ter que construir-se no vir-a-ser, o dependente encontra possibilidade de alívio em algo já dado de antemão, sensações e modos já conhecidos. Não é mais necessário buscar ser o que não é, pelo contrário, ilude-se na crença de já ser, num estado fechado, em modo único de obtenção de prazer. Restrito no cuidado de seu futuro, encontra-se enclausurado num infértil e eterno presente sem fim. Quanto mais se usa a droga, menos se obtém prazer (tolerância).
Conclusão
As drogas sempre existiram e sempre vão existir. Trata-se de uma realidade perene e historicamente comprovada. No entanto, a maneira como os seres humanos se relacionam com as substâncias psicoativas é mutável. O debate atual sobre o status das substâncias psicoativas dentro da sociedade ocidental vem se desenvolvendo a partir das soluções apresentadas pelos modelos norte-americano e europeu. O primeiro tem privilegiado a repressão ao tráfico e ao consumo, à custa da supressão de inúmeros direitos civis. Já na Europa tem sido adotada uma visão mais tolerante e flexível, respeitando a cidadania.
Talvez o melhor a fazer seja o de considerar soluções que respeitem os direitos sociais, a tolerância e o convívio com as diferenças. Contudo é muito difícil contemplar todas essas situações.
O homem pode escolher utilizar as SPA’S como forma de alcançar algo que lhe parece inacessível, como pode ser visto em sua história, em que tenta prolongar o prazer, aplacar a dor, dominar o outro, ultrapassar seus próprios limites, diferenciar-se dos demais através de comportamentos bizarros, dicotomizar suas relações no mundo, e até mesmo obter sucesso. Na tentativa ilusória de tornar-se o que não se é, esquece-se do mundo e de si, opta por não escolher ou, então, apóia-se na sua liberdade para alcançar o impossível. Acredita poder controlar o tempo de acordo com seu desejo e até sentir-se imortal.
Já que não é possível para um psicoterapeuta dissipar a ilusão do homem na tentativa de resolver os paradoxos de sua vida, cabe-lhes a tarefa de torná-lo atento. Deve ser um facilitador na abertura de seu leque de possibilidades, vislumbrando seu horizonte onde se trabalha com o possível e o real, na singularidade da vivência concreta de cada um no mundo.
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domingo, 30 de março de 2008
sábado, 8 de março de 2008
A palavra droga

A palavra droga, nos tempos antigos, não possuía qualquer valor pejorativo. A palavra era aplicada a qualquer substância capaz de modificar e corrigir alterações fisiológicas ou comportamentais de um organismo, que levavam ao aparecimento de doenças. Nas ilustrações, locais especializados em vender drogas, muito populares a partir do final do século XIX: as drogarias.
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Dependências Químicas - 6º Semestre
Histórico sobre o Consumo de Drogas
Consumo de Drogas na AntiguidadeCivilizações amazônicas: (Brasil, Equador, Colômbia e Peru)
Consumiam diversas plantas alucinógenas, com fins religiosos.
Principais plantas consumidas: são ricas em dimetiltriptamina (DMT), um alucinógeno LSD – análogo – Yopo, Jurema, Epena e a Chacrona ou Rainha.
Também usavam a Ayahuasca*, conhecida pelas civilizações amazônicas há pelo menos 2000 anos. Incas que difundiram. Os pajés adquiriam poderes divinos e lutrais (de purificação)
Vinho das almas – conhecida como DAIME – não gera dependência física ou psicológica.
Após 18 anos de estudo o CONAD – Conselho Nacional Anti-drogas retirou da lista de alucinógenos, sendo considerada ENTEÓGENA (contexto em que seu uso é feito, se for dentro de uma realidade religiosa, sagrada e tradicional)
Consumo de Drogas na Antiguidade Idade Média
Durante a Antiguidade Clássica, as substâncias psicoativas foram utilizadas com finalidades médicas, rituais e profanas.
Com a fragmentação do Império Romano, o mundo Ocidental abandonou as cidades e se fixou no campo, em busca de subsistência e proteção contra as invasões bárbaras.
Europa fragmentada em feudos, unida apenas pela moral cristã. Foi proibido consumo de substâncias psicoativas, o qual estava associado a atitudes demoníacas e passível de penas capitais.
Planta mais conhecida dos europeus medievais: mandrágora *, rica em propriedades anticolinérgicas. (afrodisíaca, alucinógena, analgésica e narcótica)
-
As Drogas nas Sociedades Ocidentais Contemporâneas
O contato com as substâncias:
Fim da Idade Média – período das Grandes Navegações, as quais permitiram que os europeus voltassem a ter contato com as substâncias que usavam na Antiguidade e com outras trazidas do Novo Mundo.
A partir do século XVIII, uma grande quantidade de medicamentos foi produzida a partir do alcalóides destas plantas.
As Drogas nas Sociedades Ocidentais Contemporâneas
O consumo liberado
A partir do século XIX, com base no espírito do Romantismo contestador, as substâncias passaram a ser utilizadas com finalidade puramente recreativa.
Período de grande tolerância - com o surgimento de vinhos à base de folha de coca, abertura de salões de ópio e consumo de maconha.
Marco: Fundação do Clube dos Haxixins (1842), pelo médico francês J. J. Moreau de Tours – psiquiatra que usava o haxixe para p tratamento de insanidade mental
Na Europa, observou-se o abuso do ópio sob a forma medicinal.
As drogas que a princípio se apresentavam na forma de produto advindo da natureza, quando levadas para o laboratório foram transformadas e passaram a produzir outras, artificialmente - as drogas sintéticas.
As Drogas nas Sociedades Ocidentais Contemporâneas Segundo David Musto *- (Doutor David Musto, professor de Psiquiatria da Universidade de Yale é um dos maiores conhecedores da história da restrição da venda de medicamentos) percurso da disseminação das drogas: inicialmente apareceram como medicamentos promissores, que despertaram grande interesse da classe científica.
Debates acadêmicos chamaram a atenção do grande público. Assim, o consumo foi aos poucos se afastando do discurso e controle médico, voltando-se para uma perspectiva de prazer e recreação.
Nova condição da substância psicoativa: produto de consumo, e portanto, desprovida de lastro cultural e rituais de controle.
Consequência: proporcionou novos padrões de uso, com o surgimento de complicações e danos físicos, psicológicos e sociais - isso suscitou a necessidade de criar mecanismos de controle pelo Estado.
A proibição do consumo:
O fim do século XIX e o início do século XX foram marcados pelo primeiro ciclo de intolerância ao uso de substâncias psicoativas.
EUA – ciclo se iniciou com a perseguição ao ópio em forma de fumo na Califórnia (década de 1870); passou pela campanha contra a cocaína e a primeira lei contra ela: o chamado Harrison Act, assinado em 1914, que culminou na aprovação de um dispositivo legal que proibia a venda, a distribuição e o consumo de bebidas alcoólicas em todo o território americano: o Volstead Act (Lei Seca - de 1919 – 1933).
Islândia – forte movimento de intolerância; foi o primeiro país ocidental a contar com uma lei (1908) que proibia o consumo de bebidas alcoólicas.
Nas duas Grandes Guerras, sua comercialização não era mais o fator primordial e sim estratégico, servindo ora para enfraquecer o inimigo, ora como amenizador da dor para os feridos e revigorante de energia para os soldados.
As anfetaminas, ao serem lançadas em forma de comprimidos, em 1837, ficaram conhecidas como a nova maravilha capaz de revigorar as energias e elevar o estado de humor.
Na segunda Grande Guerra foram largamente utilizadas pela população e pelos soldados para aplacar a fome, a fadiga e o sono. A morfina, principal constituinte do ópio, uma das potentes drogas analgésicas, com a descoberta simultânea da seringa, foi amplamente utilizada, no início por razões terapêuticas e logo depois por dependência ao produto.
Inglaterra – o controle foi durante a Primeira Grande Guerra, quando o uso de opióides e de cocaína começou a ficar fora de controle. Estas substâncias eram vendidas nas farmácias como um “útil e agradável presente para os soldados na guerra”.
- O primeiro ato de controle das drogas foi a restrição da sua disponibilidade gerando insatisfação da classe médica, a qual perdia sua autonomia de prescrição de tais substâncias.
Existem dois extremos nesse enfoque:
1- A proibição, com restrições, ou a facilidade em se conseguir as drogas e o próprio estímulo para consumí-las. Ambos têm consequências:
2 -A ausência de medidas de controle, aliada às turbulências sociais do período, fez notar o uso indevido de substâncias psicoativas como fenômeno crescente.
O desenvolvimento de formas mais perigosas de consumo é desencadeado pela repressão.
Nos EUA, por exemplo, durante a Lei Seca (caracterizada por ser repressora), em consequência da dificuldade de acesso a bebidas alcoólicas, foram registrados casos de uso de álcool injetável.
Durante o período de intolerância às drogas, os norte-americanos conjugaram leis severíssimas a uma estratégia de sonegação de informação à população sobre os efeitos e as causas do uso de drogas.
Consequência: descrença nas escassas e caricaturais mensagens antidrogas veiculadas e, principalmente, a formação de uma geração sem memória, que ignorava as lições do passado,
Motivações dos Movimentos de Controle de Substâncias Psicoativas:
Divergência entre os estudiosos quanto à motivação de controle de substâncias psicoativas.
Segundo Carlini-Cotrim * Beatriz( é doutora em Psicologia Social pela PUC-SP, tendo desenvolvido pós-doutoramento na Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston (Massachusetts, EUA). Foi pesquisadora do CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas - da Univesidade Federal de São Paulo, de 1985 a 1997. É também autora de diversos trabalhos publicados em revistas internacionais e várias dezenas em periódicos nacionais. É, ainda, vice-presidente da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Outras Drogas). – estes ciclos podem ser explicados fundamentalmente pela reação da população às variações epidemiológicas de consumo de psicotrópicos.
Assim, segundo este enfoque, a postura mais liberal em relação às drogas levaria ao aumento de consumo pela população.
Conseqüência: um aumento nos danos pessoais e sociais, como maior número de acidentes, aumento de casos de uso abusivo e a dependência de psicotrópicos, que por sua vez levaria a população a ter uma atitude menos tolerante frente às drogas.
As Drogas nas Sociedades Ocidentais Contemporâneas
Século XIX – descobrimento e a comercialização dos fármacos, sendo os principais, a morfina e a heroína.
Heroína- comercialização e venda transformaram a Bayer numa gigantesca empresa química.
Há mais de cinco mil anos a Papoula, planta de onde deriva a heroína, é conhecida pela humanidade. Naquela época, os sumérios costumavam a utilizá-la para combater algumas doenças como a insônia e constipação intestinal.
No século passado, farmacêuticos obtiveram, da Papoula, uma substância que foi chamada de morfina. O uso da morfina foi amplamente difundido na medicina do século XIX devido, principalmente, a suas propriedades analgésicas e antidiarréicas.
Da morfina, logo foram sintetizadas várias derivações como diamorfina, codeína, codetilina, heroína, metopon. A heroína é a mais conhecida delas. Na década de 20 foi constatado que a heroína causava dependência química e psíquica, por isso foi proibida sua produção e comércio no mundo todo.
A heroína voltou a se expandir pelo mundo depois da II Guerra Mundial e hoje é produzida no mercado negro principalmente no Sudeste Asiático e na Europa.
1859 – é produzida a cocaína; passou a estar presente em mais de uma centena de bebidas de venda livre, dentre elas a Coca-cola ( até 1915) e o vinho Mariani.
Século XX – drogas conhecidas são vendidas livremente, sem que o fato chame a atenção de juízes ou políticos.
Então, de acordo com o enfoque epidemiológico, o desenvolvimento da indústria química possibilitando o aumento da variedade e disponibilidade das substâncias psicoativas + falta de controle social = teria propiciado um aumento descontrolado do consumo dos psicotrópicos.
E o movimentos repressivos seriam fruto da reação da sociedade frente aos danos trazido pelo uso indevido das drogas.
Enfoque psicossocial:
Situação epidemiológica não seria suficiente para explicar estes movimentos sociais de Controle das Substâncias.
Alguns autores, sugerem que a existência objetiva de certos problemas sociais e a formação de movimentos que clamam por sua resolução são processos independentes entre si.
Escohodato (António Escohotado, professor de direito, filosofia e sociologia na Universidade de Madrid) – relaciona o movimento proibicionista na América com dois fatores principais.
1º - a reação do puritanismo nos Estados Unidos ao aumento da imigração, atribuindo abusos de cocaína aos negros, de maconha aos mexicanos e de álcool aos judeus e irlandeses.
2º - à liquidação do estado mínimo, com o recurso da formação de uma crescente burocracia que tenta disciplinar a vida pública.
Segundo Carlini –Cotrim: “o álcool passou cada vez mais a ser o elemento que explicava tudo o que não ia bem na nação norte-americana; no século XIX, álcool como bode expiatório – isso significa a possibilidade de explicar os insucessos da América Livre.
Motivação semelhante na proibição da maconha do Brasil:
A expansão do uso da cannabis entre os séculos XVI e XX no Brasil se deu preferencialmente entre negros e índios, relacionando-se aos setores marginalizados da sociedade.
Vinculada a uma idéia de vagabundagem e malandragem, a erva tornou-se maldita e a cultura do homem branco criou o estigma e o mito ainda predominantes.
A Contracultura e os questionamentos ao Modelo Proibicionista:
Século XX - as décadas de 1960 e 1970 marcaram, em vários países, um período de acentuada condescência com o consumo de drogas.
Artistas, intelectuais propagaram o uso de substâncias psicoativas e o associaram a ideais de contracultura e de uma nova ordem social.
Período de grandes questionamentos (entre os jovens).
Anos 60 – protestos estudantis, questionamento da ordem social estabelecida e busca de novos valores culturais.
Experimentar drogas fazia parte dessa busca.
A faixa etária dos usuários de droga começa a se alargar: o que até os anos 50 era prática do adulto advindo geralmente de colônias asiáticas e intoxicadas por tratamentos terapêuticos fazendo uso pessoal, nos anos 70 amplia-se tanto para os adolescentes quanto para os idosos.
França – 1970: foi aprovada a lei que garante o anonimato, gratuidade e voluntariedade do tratamento dos dependentes químicos, fundamentos que regem até hoje o atendimento a farmacodependentes.
Desde o fim da década de 70, o cenário das drogas passou por um novo processo de mudança: vários países viveram um segundo ciclo de intolerância às drogas, capitaneado pelos EUA e corroborado pela elaboração das Convenções-Irmãs da ONU.
Posicionamento europeu distanciou-se do Norte-americano:
EUA: crescente intolerância, principalmente do consumo de drogas ilícitas.
Europeu: gradativamente foi aceitando novas formas de abordagem do problema, conforme era a ineficácia observada nas abordagens anteriores.
Consumiam diversas plantas alucinógenas, com fins religiosos.
Principais plantas consumidas: são ricas em dimetiltriptamina (DMT), um alucinógeno LSD – análogo – Yopo, Jurema, Epena e a Chacrona ou Rainha.
Também usavam a Ayahuasca*, conhecida pelas civilizações amazônicas há pelo menos 2000 anos. Incas que difundiram. Os pajés adquiriam poderes divinos e lutrais (de purificação)
Vinho das almas – conhecida como DAIME – não gera dependência física ou psicológica.
Após 18 anos de estudo o CONAD – Conselho Nacional Anti-drogas retirou da lista de alucinógenos, sendo considerada ENTEÓGENA (contexto em que seu uso é feito, se for dentro de uma realidade religiosa, sagrada e tradicional)
Consumo de Drogas na Antiguidade Idade Média
Durante a Antiguidade Clássica, as substâncias psicoativas foram utilizadas com finalidades médicas, rituais e profanas.
Com a fragmentação do Império Romano, o mundo Ocidental abandonou as cidades e se fixou no campo, em busca de subsistência e proteção contra as invasões bárbaras.
Europa fragmentada em feudos, unida apenas pela moral cristã. Foi proibido consumo de substâncias psicoativas, o qual estava associado a atitudes demoníacas e passível de penas capitais.
Planta mais conhecida dos europeus medievais: mandrágora *, rica em propriedades anticolinérgicas. (afrodisíaca, alucinógena, analgésica e narcótica)
-
As Drogas nas Sociedades Ocidentais Contemporâneas
O contato com as substâncias:
Fim da Idade Média – período das Grandes Navegações, as quais permitiram que os europeus voltassem a ter contato com as substâncias que usavam na Antiguidade e com outras trazidas do Novo Mundo.
A partir do século XVIII, uma grande quantidade de medicamentos foi produzida a partir do alcalóides destas plantas.
As Drogas nas Sociedades Ocidentais Contemporâneas
O consumo liberado
A partir do século XIX, com base no espírito do Romantismo contestador, as substâncias passaram a ser utilizadas com finalidade puramente recreativa.
Período de grande tolerância - com o surgimento de vinhos à base de folha de coca, abertura de salões de ópio e consumo de maconha.
Marco: Fundação do Clube dos Haxixins (1842), pelo médico francês J. J. Moreau de Tours – psiquiatra que usava o haxixe para p tratamento de insanidade mental
Na Europa, observou-se o abuso do ópio sob a forma medicinal.
As drogas que a princípio se apresentavam na forma de produto advindo da natureza, quando levadas para o laboratório foram transformadas e passaram a produzir outras, artificialmente - as drogas sintéticas.
As Drogas nas Sociedades Ocidentais Contemporâneas Segundo David Musto *- (Doutor David Musto, professor de Psiquiatria da Universidade de Yale é um dos maiores conhecedores da história da restrição da venda de medicamentos) percurso da disseminação das drogas: inicialmente apareceram como medicamentos promissores, que despertaram grande interesse da classe científica.
Debates acadêmicos chamaram a atenção do grande público. Assim, o consumo foi aos poucos se afastando do discurso e controle médico, voltando-se para uma perspectiva de prazer e recreação.
Nova condição da substância psicoativa: produto de consumo, e portanto, desprovida de lastro cultural e rituais de controle.
Consequência: proporcionou novos padrões de uso, com o surgimento de complicações e danos físicos, psicológicos e sociais - isso suscitou a necessidade de criar mecanismos de controle pelo Estado.
A proibição do consumo:
O fim do século XIX e o início do século XX foram marcados pelo primeiro ciclo de intolerância ao uso de substâncias psicoativas.
EUA – ciclo se iniciou com a perseguição ao ópio em forma de fumo na Califórnia (década de 1870); passou pela campanha contra a cocaína e a primeira lei contra ela: o chamado Harrison Act, assinado em 1914, que culminou na aprovação de um dispositivo legal que proibia a venda, a distribuição e o consumo de bebidas alcoólicas em todo o território americano: o Volstead Act (Lei Seca - de 1919 – 1933).
Islândia – forte movimento de intolerância; foi o primeiro país ocidental a contar com uma lei (1908) que proibia o consumo de bebidas alcoólicas.
Nas duas Grandes Guerras, sua comercialização não era mais o fator primordial e sim estratégico, servindo ora para enfraquecer o inimigo, ora como amenizador da dor para os feridos e revigorante de energia para os soldados.
As anfetaminas, ao serem lançadas em forma de comprimidos, em 1837, ficaram conhecidas como a nova maravilha capaz de revigorar as energias e elevar o estado de humor.
Na segunda Grande Guerra foram largamente utilizadas pela população e pelos soldados para aplacar a fome, a fadiga e o sono. A morfina, principal constituinte do ópio, uma das potentes drogas analgésicas, com a descoberta simultânea da seringa, foi amplamente utilizada, no início por razões terapêuticas e logo depois por dependência ao produto.
Inglaterra – o controle foi durante a Primeira Grande Guerra, quando o uso de opióides e de cocaína começou a ficar fora de controle. Estas substâncias eram vendidas nas farmácias como um “útil e agradável presente para os soldados na guerra”.
- O primeiro ato de controle das drogas foi a restrição da sua disponibilidade gerando insatisfação da classe médica, a qual perdia sua autonomia de prescrição de tais substâncias.
Existem dois extremos nesse enfoque:
1- A proibição, com restrições, ou a facilidade em se conseguir as drogas e o próprio estímulo para consumí-las. Ambos têm consequências:
2 -A ausência de medidas de controle, aliada às turbulências sociais do período, fez notar o uso indevido de substâncias psicoativas como fenômeno crescente.
O desenvolvimento de formas mais perigosas de consumo é desencadeado pela repressão.
Nos EUA, por exemplo, durante a Lei Seca (caracterizada por ser repressora), em consequência da dificuldade de acesso a bebidas alcoólicas, foram registrados casos de uso de álcool injetável.
Durante o período de intolerância às drogas, os norte-americanos conjugaram leis severíssimas a uma estratégia de sonegação de informação à população sobre os efeitos e as causas do uso de drogas.
Consequência: descrença nas escassas e caricaturais mensagens antidrogas veiculadas e, principalmente, a formação de uma geração sem memória, que ignorava as lições do passado,
Motivações dos Movimentos de Controle de Substâncias Psicoativas:
Divergência entre os estudiosos quanto à motivação de controle de substâncias psicoativas.
Segundo Carlini-Cotrim * Beatriz( é doutora em Psicologia Social pela PUC-SP, tendo desenvolvido pós-doutoramento na Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston (Massachusetts, EUA). Foi pesquisadora do CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas - da Univesidade Federal de São Paulo, de 1985 a 1997. É também autora de diversos trabalhos publicados em revistas internacionais e várias dezenas em periódicos nacionais. É, ainda, vice-presidente da ABEAD (Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Outras Drogas). – estes ciclos podem ser explicados fundamentalmente pela reação da população às variações epidemiológicas de consumo de psicotrópicos.
Assim, segundo este enfoque, a postura mais liberal em relação às drogas levaria ao aumento de consumo pela população.
Conseqüência: um aumento nos danos pessoais e sociais, como maior número de acidentes, aumento de casos de uso abusivo e a dependência de psicotrópicos, que por sua vez levaria a população a ter uma atitude menos tolerante frente às drogas.
As Drogas nas Sociedades Ocidentais Contemporâneas
Século XIX – descobrimento e a comercialização dos fármacos, sendo os principais, a morfina e a heroína.
Heroína- comercialização e venda transformaram a Bayer numa gigantesca empresa química.
Há mais de cinco mil anos a Papoula, planta de onde deriva a heroína, é conhecida pela humanidade. Naquela época, os sumérios costumavam a utilizá-la para combater algumas doenças como a insônia e constipação intestinal.
No século passado, farmacêuticos obtiveram, da Papoula, uma substância que foi chamada de morfina. O uso da morfina foi amplamente difundido na medicina do século XIX devido, principalmente, a suas propriedades analgésicas e antidiarréicas.
Da morfina, logo foram sintetizadas várias derivações como diamorfina, codeína, codetilina, heroína, metopon. A heroína é a mais conhecida delas. Na década de 20 foi constatado que a heroína causava dependência química e psíquica, por isso foi proibida sua produção e comércio no mundo todo.
A heroína voltou a se expandir pelo mundo depois da II Guerra Mundial e hoje é produzida no mercado negro principalmente no Sudeste Asiático e na Europa.
1859 – é produzida a cocaína; passou a estar presente em mais de uma centena de bebidas de venda livre, dentre elas a Coca-cola ( até 1915) e o vinho Mariani.
Século XX – drogas conhecidas são vendidas livremente, sem que o fato chame a atenção de juízes ou políticos.
Então, de acordo com o enfoque epidemiológico, o desenvolvimento da indústria química possibilitando o aumento da variedade e disponibilidade das substâncias psicoativas + falta de controle social = teria propiciado um aumento descontrolado do consumo dos psicotrópicos.
E o movimentos repressivos seriam fruto da reação da sociedade frente aos danos trazido pelo uso indevido das drogas.
Enfoque psicossocial:
Situação epidemiológica não seria suficiente para explicar estes movimentos sociais de Controle das Substâncias.
Alguns autores, sugerem que a existência objetiva de certos problemas sociais e a formação de movimentos que clamam por sua resolução são processos independentes entre si.
Escohodato (António Escohotado, professor de direito, filosofia e sociologia na Universidade de Madrid) – relaciona o movimento proibicionista na América com dois fatores principais.
1º - a reação do puritanismo nos Estados Unidos ao aumento da imigração, atribuindo abusos de cocaína aos negros, de maconha aos mexicanos e de álcool aos judeus e irlandeses.
2º - à liquidação do estado mínimo, com o recurso da formação de uma crescente burocracia que tenta disciplinar a vida pública.
Segundo Carlini –Cotrim: “o álcool passou cada vez mais a ser o elemento que explicava tudo o que não ia bem na nação norte-americana; no século XIX, álcool como bode expiatório – isso significa a possibilidade de explicar os insucessos da América Livre.
Motivação semelhante na proibição da maconha do Brasil:
A expansão do uso da cannabis entre os séculos XVI e XX no Brasil se deu preferencialmente entre negros e índios, relacionando-se aos setores marginalizados da sociedade.
Vinculada a uma idéia de vagabundagem e malandragem, a erva tornou-se maldita e a cultura do homem branco criou o estigma e o mito ainda predominantes.
A Contracultura e os questionamentos ao Modelo Proibicionista:
Século XX - as décadas de 1960 e 1970 marcaram, em vários países, um período de acentuada condescência com o consumo de drogas.
Artistas, intelectuais propagaram o uso de substâncias psicoativas e o associaram a ideais de contracultura e de uma nova ordem social.
Período de grandes questionamentos (entre os jovens).
Anos 60 – protestos estudantis, questionamento da ordem social estabelecida e busca de novos valores culturais.
Experimentar drogas fazia parte dessa busca.
A faixa etária dos usuários de droga começa a se alargar: o que até os anos 50 era prática do adulto advindo geralmente de colônias asiáticas e intoxicadas por tratamentos terapêuticos fazendo uso pessoal, nos anos 70 amplia-se tanto para os adolescentes quanto para os idosos.
França – 1970: foi aprovada a lei que garante o anonimato, gratuidade e voluntariedade do tratamento dos dependentes químicos, fundamentos que regem até hoje o atendimento a farmacodependentes.
Desde o fim da década de 70, o cenário das drogas passou por um novo processo de mudança: vários países viveram um segundo ciclo de intolerância às drogas, capitaneado pelos EUA e corroborado pela elaboração das Convenções-Irmãs da ONU.
Posicionamento europeu distanciou-se do Norte-americano:
EUA: crescente intolerância, principalmente do consumo de drogas ilícitas.
Europeu: gradativamente foi aceitando novas formas de abordagem do problema, conforme era a ineficácia observada nas abordagens anteriores.
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