Reflexão
Nas primeiras aulas de psicologia da saúde, fomos apresentados à disciplina, e um dos objetivos que constava na ementa, era o que faz o psicólogo que trabalha na área da saúde e quais suas possibilidades de atuação profissional. Assim, começamos o curso buscando compreender o fazer do psicólogo que atua diretamente na área de saúde, seja em hospitais, em programas de saúde da família, em reabilitação, etc.
Foi importante termos como ponto de referência o conceito de saúde, que atualmente vai além do que a ausência de doença. Vimos como são importantes os programas de promoção de saúde, que fornecem informações sobre qualidade de vida, sendo que esses esclarecimentos foram sempre feitos em paralelo com o conhecimento sobre as possibilidades de atuação do psicólogo.
Discutindo o fazer do Psicólogo, foi impossível não chegar à questão da formação profissional, e de como ainda é marcante o fato deste ainda ser visto como um profissional especialista, já que essa visão, segundo Soares (2005) é influenciada pelos órgãos formadores, que ainda são predominantemente clínicos, levando a uma prática clínico-terapêutica remediativa e curativa. Como estudante de graduação foi impossível não relacionar essa questão a outras disciplinas como Psicologia Escolar, Psicologia Organizacional e do Trabalho dentre outras, já que esse tema também foi assunto de várias aulas e estava em muito dos textos lidos ao longo do curso.
Em especial, dois textos foram marcantes, tanto no conteúdo transmitido quanto em função de momentos vividos por mim:
O primeiro foi o artigo: “A vida é mais forte que teorias”: O psicólogo nos serviços de atenção primária à saúde, no qual a autora mostra situações de uma prática voltada para a prevenção e promoção da saúde que permite um “trabalho interdisciplinar, de forma a abandonar o modelo tradicional centrado na figura do médico como possuidor do poder de cura” (SOARES, 2005, p.593). Além disso, pude compreender sobre o que é um Programa de Saúde da Família e o que pode fazer um psicólogo na prática, não só nesses PSF’s como em outras situações de trabalho em comunidade. Esse texto foi importante, pois ele vai além da experiência num trabalho em PSF, mostrando a importância do apreender com o que ainda está em construção, e que muitas vezes não foi teorizado. Mais uma vez faço um link com outras disciplinas aonde vimos que existem saberes em construção que não estão ainda nos papéis, como num texto lido em Psicologia Escolar sobre a “Classe Hospitalar” que é a educação para crianças que estão hospitalizadas.
O outro texto foi A relação paciente-médico: para uma humanização da prática médica. Esse texto foi literalmente lido numa situação de hospital, onde eu me encontrava por motivos pessoais (o meu filho foi submetido a uma pequena cirurgia) onde vivenciava justamente essa relação de ansiedade tão bem descrita pelas autoras. O artigo me levou à diversas reflexões sobre essa relação paciente-médico que está diretamente implicada nas possibilidades de atuação do psicólogo da saúde.
O artigo propõe uma reflexão a cerca da humanização da relação da entre médicos e pacientes a partir de uma revisão de literatura sobre o tema, apresentando diversas bases teórico-filosóficas.
As autoras propõem uma abordagem que considere o paciente como um todo, em sua integridade física, psíquica e social, e não somente através do lado biológico, privilegiando a abordagem hermenêutica, para a qual, grosso modo, o conhecimento nasce a partir de uma experiência pessoal. A justificativa para essa abordagem parte da própria experiência de médicos enquanto pacientes, que deixam de lado a onipotência da profissão, passando a usar as vestes brancas, a ter um número como identificação, experimentando o que é estar dependente de outros médicos.
A humanização da relação do médico-paciente, portanto, implica num olhar e numa escuta diferenciada para aquele que está em situação de sofrimento, onde é preciso também levar em conta a história dessa pessoa doente. Achei importante quando as autoras explicitam que isso não implica numa ocupação do lugar do psicólogo.
Ao repensar as possibilidades do fazer do psicólogo da saúde tão inserido num contexto profundamente enraizado pela dicotomia cartesiana que divide corpo e mente, sinto a importância de expressar o sentimento de frustração, quando a possibilidade de uma experiência prática foi impedida em função de imprevistos que fugiram ao nosso controle. Refiro-me ao projeto de intervenção em prevenção primária de saúde que seria feito na comunidade do Vale das Pedrinhas. Contudo penso, cada vez mais, o quanto é possível crescer com as nossas faltas é quanto importante é “ética do desejo que nos anima e que torna imprevisível a aventura de viver”.
Por fim, gostaria de colocar o quanto foi interessante ter como “bônus extra”, a possibilidade de aprender sobre a psicologia da saúde através de uma perspectiva psicanalítica, o que me levou a um olhar diferente (do que tem sido visto na maior parte do curso) não só para a psicologia da saúde, mas também para o processo de formação acadêmica como um todo.
Referências
CAPRARA, A.; FRANCO, A. L. S. A relação paciente-médico: para uma humanização da prática médica. Cadernos de Saúde Pública., Rio de Janeiro, v. 15, n. 3, 1999.
SOARES, T. C.. "A vida é mais forte do que as teorias" o psicólogo nos serviços de atenção primária à saúde. Psicologia ciência e profissão, dez. 2005, vol.25, no.4, p.590-601.
sábado, 8 de março de 2008
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